Um poema em prosa

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Não — eu nunca soube sobre a baleia;
No verbete, o maior cetáceo dos oceanos.
Uma baleia azul equivale a 8 ou 10 andares de um prédio.
A baleia é imensa, mas quase nunca dá as caras na superfície.

A baleia não existe no cotidiano de pássaros de plumagem cinza vasculhando os céus da cidade. E de minhocas cavando buracos na terra do jardim. E de cachorros revirando o lixo na madrugada. E de corujas em postes de madeira numa cidade do interior. E de insetos presos na luz numa noite quente de varandas abertas. A baleia inexiste.

Não — eu nunca soube sobre a baleia;
Mas ela me encanta quando vem à tona e me lembra de que a imensidão também é tímida.

Muitas vezes, o rabo da baleia é o máximo da baleia.
Muitas vezes, o meu olhar de canto é o máximo dos meus olhos.
E você não entende.

Meu pai nunca me deu um beijo ou um abraço que durasse mais de dois segundos. Minha mãe nunca perguntou se eu já tinha me apaixonado por alguém. Mas meu pai consertou o meu ventilador. Para que eu pudesse dormir durante o verão. Devo a ele meus noventa sonos tranquilos. Minha mãe me comprou um anel de latão. Para que eu finalmente tivesse um anel que coubesse no meu dedo. Devo a ela um amuleto para a vida.

Dessas coisas pequenas e substanciais, a baleia foge. A baleia é grande e silenciosa. A baleia é maior em sua representação. Um cartaz, um broche, um desenho: a baleia se expande. Olham para o meu papel de parede de baleias: que lindo! Onde comprou? Gosto da temática marítima! Mas recusam-se a entrar no mar. É gelado! Não quero ser queimada por uma água-viva. Eu queria escrever sobre a água-viva também. Mas eu a deixo para outro dia.

Na primeira vez que estive num barco, achei que veria uma baleia. E descobri, com assombro, que navegava em rio. E a baleia? Tá lá no mar. Não cabe aqui. De não caber, ela desapareceu.

Quando assistindo TV, vi a baleia se erguer e cair de costas no mar, parecia um sofrimento. Como quem é parido e quer voltar para o ventre. É de um esforço unânime. Meus pais, meus irmãos, meus avós, correram para a sala. Já passou! Eu disse. Queria ter visto! Mas agora vão mostrar o leopardo.

A baleia inóspita, longínqua, como um continente a parte. Não te contaram, não me contaram, mas o continente perdido era a maior baleia do mundo. É a baleia azul. Azul porque tomou o azul do oceano inteiro para si.

Ninguém questiona a nuvem, tão grande quanto baleia, pairando sobre nossas cabeças. Mas todos questionam a baleia — e ela sempre parece enigma não resolvido. Resolvam a baleia! Eu digo. Não. Deixem a baleia em paz. Não cacem a baleia, etc. etc.

Algum dia vou para alto-mar, para ver por mim mesma. Me dá a tua mão e espia; não tema a grandeza escondida. A baleia reversa, pequena, silenciosa. Coloca tua mão sobre meu peito e sinta meu pulsar leve. Uma coisa inexplicável dorme dentro de mim. Virá à tona como a baleia, que precisa esguichar água para respirar. Virei à tona, tirando meu rosto dos lençóis e te olhando só para que sussurre em meu ouvido: “Mi pequeña ballena”.

Poesia é a minha forma de existir no mundo.

Poesia é a minha forma de existir no mundo.